O Projecto " Arte Nossa" nasce pela necessidade de atribuir um novo ênfase às questões dos ofícios tradicionais de Castelo de Vide, uma vez que enfrentam o risco de desaparecer por completo, perdendo-se, assim, parte da memória colectiva de Castelo de Vide e, consequentemente, da sua autenticidade.É neste sentido que pretendemos não somente apresentar alguns destes ofícios, como também debatê-los num contexto teórico e numa perspectiva futura.Assim, o projecto incidirá em dois aspectos distintos mas que se complementam: por um lado a mostra de ofícios que será apresentada em pontos específicos da vila que o visitante percorrerá; por outro lado, um debate sobre a importância dos ofícios enquanto manifestações da identidade e autenticidade de Castelo de Vide, bem como promotores de desenvolvimento local.


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Mestes e Ofícios

Ofício

Com efeito, podem existir várias interpretações para artesanato, dado o seu carácter abrangente… No entanto, segundo a legislação portuguesa, Portaria nº 1099/80 de 29 de Dezembro, “ considera-se artesão o trabalhador que, isoladamente, em unidade de tipo familiar ou associado, transforma matérias-primas e produz ou repara objectos, ao qual se exige um certo sentido estético e habilidade ou perícia manual, podendo, no entanto, usar máquinas como auxiliares de trabalho, e cuja intervenção pessoal, dominando todas as fases do processo produtivo, constitui factor predominante no mesmo, ao contrário do que se passa na actividade industrial ou de produção em série” (VIDEIRA, Henrique, 1997, pp.34,35).
Deste modo, o artesão, ou mestre, é aquele que, em sua própria casa ou oficina, produz objectos de uso doméstico, de forma manual ou mecânica, e lhes incute um carácter pessoal, no que se diferencia do operário industrial.


Os ofícios e o artesanato constituem, sem dúvida, a forma mais antiga da actividade profissional. Durante a época da Antiguidade Clássica a actividade artesanal encontrava-se circunscrita aos escravos. Foi na Idade Média que os ofícios alcançaram todo o seu esplendor. Durante esse período criaram-se obras de arte excepcionais (catedrais, palácios, trabalhos em ferro forjado, vidraria, etc.) e os mestres artesãos transformaram-se na força mais importante da economia urbana.
De facto, até meados de 1834, com o banimento da Monarquia, as Corporações sempre procuraram dignificar o trabalho mecânico, através da promoção social dos mestres.
Desta forma, e perante uma crescente prosperidade económica, em muito impulsionada pelo próprio desenvolvimento das artes e dos ofícios, encontramos a burguesia dos artesãos e artífices em profunda ascensão social. Assim, estes juntam bens, exercem funções político - administrativas e criam uma “nobreza própria” que acaba por facilitar a mobilidade entre as três classes que estruturam o reino.
Neste contexto, destacavam-se as Corporações dos Ofícios bastante convictas no poder do associativismo. Adquiriram, portanto, mais poder e, consequentemente, mais prestígio (PINTO, 1974).



Porém, com o aparecimento das empresas fabris, durante a segunda metade do séc. XVII parecia que os ofícios estavam condenados a desaparecer. Produziu-se realmente uma alteração de estruturas: todos os produtos que podiam fabricar-se em série foram sendo fornecidos pela indústria, enquanto aqueles que permaneciam exigindo uma manufactura individual, pessoal e de grande qualidade ou técnica artística eram produzidos pelos artesãos.
A massificação da produção veio trazer alterações significativas no modo de vida das populações, as comunidades sempre adaptaram os seus recursos às suas necessidades, traduzindo-se assim na produção de bens específicos para responder às necessidades dessa mesma sociedade.
Em Castelo de Vide os ofícios são indissociáveis da sua história.
Quando os judeus vieram para cá no século XIV uma das importantes formas das pessoas ganharem o seu sustento era fazendo fardas para os exércitos. Assim, se criou toda uma dinâmica na judiaria que até ao inicio do século se a fechassem conseguia ser auto-suficiente, tal como tem vindo a estudar o Sr. carolino que se dedica a estas questões á mais de 30 anos.
Inicialmente faziam-se fardas, que deu origem a que se instalassem também as tinturarias, gerando um verdadeiro motor de desenvolvimento assim, vieram os sapateiros, as pessoas que faziam botões, os alfinetes ferreiro. Fazendo desta notável vila uma “vilazinha medieval, uma cidadezinha moderna” é a frase que para Carolino Tapadejo mais descreve a vila esta dualidade entre a história do burgo e o forte traço da serra.
Assim, o projecto Arte Nossa pretende explorar esta temática, debruçando-se sobre os seguintes ofícios:
  • Arte Boleira;
  • Arte de trabalhar o ferro;
  • Arte Pastoril;
  • Arte do Barbeiro;
  • Arte da Trapologia;
  • Arte do Tipógrafo;

A escolha destes ofícios prende-se com questões meramente metodológicas, no sentido em que, os mestres possuiam ainda as ferramentes nessecárias à sua profissão, bem como continuam a trabalhar, nem que seja esporadicamente, contudo temos a certeza de que existem muitos outros ofícios de igual importância em Castelo de vide.

Arte do Tipógrafo

É no Largo João Le Cocq em Castelo de Vide, que encontramos a antiga tipografia, herança deixada pela ilustre família Le Cocq.
Ao entrar na envelhecida tipografia cinzenta, onde perdura um cheiro a tinta e papel, encontramos o Sr. Manuel Silva, que recorda que a última impressão tipográfica em Castelo de Vide foi à cerca de 10 anos, tendo, ele mesmo, participado no processo de impressão tipográfica, do Jornal Local “Castelo Vidense”.
De facto, os novos processos de mecanização e de edição de texto acabaram por seduzir o Sr. Silva, que conhecendo a complexa técnica tipográfica, a troca pelos facilitismos oferecidos pelas novas tecnologias. Aprendeu o ofício com o seu irmão que o desenvolveu com mestria durante 40 anos.
Compreensivelmente, como nos conta o Sr. Manuel, as exigências de um mercado em constante competitividade, impôs a necessidade de dar respostas cada vez mais ajustadas à época, sendo, neste mesmo sentido, orientado pelo processo informático que desenvolve o seu trabalho..
Com efeito, entende-se por tipografia a arte de compor e imprimir com caracteres e, clichés em relevo. Na verdade, a tipografia engloba uma série completa de operações relativas ao fabrico e ao emprego de caracteres. A sua invenção é atribuída a Joannes Gutenberg, que terá efectuado as suas primeiras experiências cerca de 1440, e cuja principal inovação consistiu na criação de moldes manuais para fundir os caracteres soltos.
A impressão tipográfica assume-se, portanto, como um complexo e trabalhoso método de impressão. Efectivamente, para a elaboração de uma página de jornal é necessário definir, sempre manualmente, a espaço entre as letras e as linhas, bem como o tamanho dos próprios tipos. Utilizava-se igualmente as zincogravuras, que representavam desenhos, simples formas geométricas, que funcionam como logótipos. Por outro lado, as páginas dos jornais eram compostas em tabuleiros armados, que por vezes chegavam a pesar 40 kg, e que demora cerca de 20/30 minutos a organizar, por aqueles que dominam a arte de imortalizar nas brancas folhas a tinta indelével que imprime no tempo as memórias passadas.


Arte da Trapologia



Perto dos 82 anos, que irá celebrar no dia 3 de Agosto, D. Esperança Coelho mantém-se ainda muito activa e cheia de alegria. É no número 26 da Rua direita do Castelo que esta senhora guarda a chave de muitos tesouros, a igreja de Nossa Senhora da Alegria e os seus tão bonitos e perfeitos trabalhos em trapologia.
D. Esperança não nasceu em Castelo de Vide é natural de Lisboa mas foi cedo e por imposições da vida que o seu caminho a levou a esta vila onde casou, enviuvou e agora vive sozinha.
Antes de se dedicar ao ofício da trapologia era dona de casa, trabalhava no campo e costurava, sobretudo, fatos para homem. Começou por fazer pegas e almofadas seguindo-se as colchas para camas, um trabalho mais difícil e moroso mas sempre com a mesma perfeição e perícia que caracterizam a arte. O seu volume de trabalho poderia ter crescido se Belmira tivesse ido vender para Lisboa, como houvera sido convidada em tempos. De facto, esta senhora foi sempre uma autodidacta quando lhe perguntamos quem a ensinou a coser ela de imediato responde “amanhada, nunca ninguém me ensinou.”.
D. Esperança vive, hoje, rodeada dos seus trapos que corta e coze milimetricamente, construindo as mais variadas formas, com as mais diversas utilidades. Dois dos trabalhos que executa com mais frequência são os sacos para o pão e os aventais, que demoram cerca de dois dias a fazer. Orgulha-se de, devido a esta arte tão nobre da qual se fala tão pouco, tenha ido já à televisão, tendo mesmo sido entrevistada por alguns jornais. A técnica é simples, corta-se os bocados de tecido (ou quadrados ou tiras) e ao primeiro que ficará no meio vão-se juntando outros, aos poucos outros e outros, de muitas cores, criando uma miscelânea colorida ao gosto de quem as coseu.
Que valeria cada pedaço de tecido isolado? Agora juntos são uma colcha, uma pega ou um saco… antigamente servia-se com os retalhos de Lisboa mas, como diz, desde o ano de 2000 que cada vez vende menos e por isso já lhe servem os retalhos de Castelo de Vide. Contudo, é com o mesmo amor e dedicação que coloca em cada ponto a linha que vai perpetuando este ofício tão singelo.

Barbeiro


Embora o barbeiro seja comummente designado como aquele que por ofício rapa ou apara barbas e corta o cabelo dos homens, a verdade é que o papel que tem desempenhado ao longo da história é bem mais profícuo do que normalmente julgamos.
Com efeito, em terras pequenas acontecia por vezes, que os antigos barbeiros acumulavam, igualmente, a arte da pequena cirurgia, quer fosse a sangrar ou a tirar dentes.
Efectivamente, este ofício tinha já no séc. XVI regimento próprio, dado pelo Senado de Lisboa. Em 1604 Manuel Leitão publicou uma obra curiosa cujo título é: "Práticas de barbeiros em 4 tratados, em os quais se trata de como se há-de sangrar e as cousas necessárias para a sangria e juntamente se trata em que parte do corpo humano se hão-de lançar as ventosas assi secas como sarjadas (…)" (CRAESBREECK, Pedro, 1604).
Foi a partir do séc. 1000 que o barbeiro começou a ganhar grande importância, não só pela sua arte ocupada em tonsurar os monges, mas também em sangrá-los, segundo as regras monacais. De facto, o barbeiro foi considerado um verdadeiro prático no seu mister de cirurgião e sangrador, até ao final do séc. XVIII, momento em que tais práticas lhes foram proibidas, sob pena de incidirem em infracções legais se continuassem o seu exercício.
Assim, com o passar dos tempos e a adaptação a novos costumes, a grande maioria dos barbeiros tem sentido o declínio da clientela, que prefere os modernos e sofisticados cabeleireiros.
Com efeito, o manuseamento ágil dos utensílios no acto de cortar cabelos e barbas, que anos e anos de prática ajudam a consagrar, representa um verdadeiro serviço personificado à comunidade e que resulta num compromisso social partilhado entre os clientes frequentes e o barbeiro.
Deste modo, a barbearia distingue-se como um local profundamente social, onde as desprendidas conversas trocadas na antiga cadeira verde são a ordem do dia, produzindo um clima de empatia e bem-estar comum.
E encontramos na animada “barbearia do Chinês”, sempre aberta, uma pequena porta que nem assim consegue esconder a mestria de quem com uma boa disposição contagiante manuseia com perícia os instrumentos que fazem de sim um caso impar. Referimo-nos a João Marmelo Chaves, que abraçou esta profissão há cerca de 60 anos atrás. Aprendeu esta arte, com os mestres barbeiros de Castelo de Vide, que em tempos chegaram a ser treze.
Desde os seus doze anos de idade, que aprendera a manejar a tesoura, nas várias casas de barbearia, onde inicialmente não recebera ordenado, pois a sua retribuição era paga com a aprendizagem do ofício.
Depois de 3 anos de aprendizagem, até desempenhar correctamente o ofício, trabalhou ainda em várias barbearias de Castelo de Vide, abrindo, posteriormente, o seu próprio negócio no qual se mantém à 54 anos, perpetuando a existência da última barbearia da vila.
A sabedoria que muitos anos de prática permitem, foi já transmitida a 20 rapazes a quem ensinou o antigo ofício, acabando muitos deles por trabalhar na Suíça e em Londres, certamente motivados pela habilidade e concepção natural de quem faz de um ofício uma vida!
Na verdade, na barbearia do Sr. João Chaves, nunca faltou gente. Desde a sua abertura matinal até fechar a porta, já ao entardecer, há sempre quem deite uma espreitadela, nem que tão simplesmente para esboçar um cumprimento.
De facto, a “barbearia do Chinês” é um exemplar copioso da barbearia de há 54 anos atrás… Tudo nela é igual e se encontra igualmente disposto, só os rostos que por ela ficam e se perdem, atestam, à semelhança dos próprios objectos, a inevitável passagem do tempo. O Sr. Chaves relata também orgulhosamente que as cadeiras lhe “custaram 4200 escudos” e até que um senhor americano, à cerca de cinco anos, lha quis comprar uma delas pela quantia de 600 euros, negando-se de imediato a vendê-la.
À bancada por onde se distribui todo o seu material dá-se o nome de tanjete. Esta dispõe um conjunto de utensílios necessários à sua prática diária, nomeadamente, a taça da espuma, o espanador, a escovinha, a tesoura, a navalha e os cremes.
Com seu ar simpático e entusiástico, o Sr. Chaves confessa que “ fazer a barba, custa só um euro”, um preço simbólico, para uma prática que há muito se vem perdendo no tempo.
Na verdade, com humildade e igual devoção ao ofício que desenvolve, afirma que a barbearia se encontra aberta semanalmente, das 9 horas às 19horas, encerrando somente aos domingos e 2ª feiras de manhã, dia em que se desloca ao “Albergue” para fazer, também aí, a barba aos utentes.
Contudo, paralelamente à profissão de barbeiro, esteve envolvido em muitas outras actividades, que atestam a sua iniciativa e apurada sensibilidade. Esteve, portanto, ligado ao Grupo de Teatro de Castelo de Vide, onde representou inúmeras peças, tais como “A Barca do Inferno”de Gil Vicente, afirmando ainda sabê-la de cor. Foi também membro da Banda Filarmónica de Castelo de Vide, onde tocou trompete, chegando a trocar a sua barbearia pelos concertos que realizavam em Setúbal, Lisboa e Estremoz. Afirma que “…eram as únicas alturas em que encerrava a barbearia”.
“ Nesta vida, eu não fazia só barba nem cortava cabelos” – afirma Sr. João Chaves, que há cerca de dois anos, se viu obrigado a encerrar, a única casa que vendera “jogo” em Castelo de Vide, e que mantinha há 50 anos, onde era agente do campeão.
Chegou também a ser em tempos passados, agente funerário. Com a experiência destes tempos, surgem histórias caricatas, que ocorreram em tempos passados. São memórias que contagiam o seu percurso de vida e que faz questão de partilhar, com os seus clientes e amigos.
Efectivamente, no longo trajecto da vida, ténue como um fio de cabelo, os seus clientes mais antigos acabaram por falecer, conseguindo identificar perfeitamente o pai do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide como o seu mais antigo cliente vivo.
Os dias em que havia maior freguesia na barbearia seriam, noutros tempos, as sextas-feiras e os sábados, porém actualmente o panorama é diferente, e todos os dias se vai trabalhando. Presentemente, o sábado surge como o dia mais fraco.
E ao reflectir no seu meio século de prática deste ofício afirma levar muitas amizades e uma “ bagagem repleta de histórias de muitas vidas”, que foram cortadas e aparadas por aquele que, preservando uma paixão inesgotável à arte que tranquilamente desenvolve, levará sempre consigo os sorrisos daqueles que entraram “na sua barbearia verde…”

Arte Pastoril

No ano em nasceu Sr. Francisco Viegas tudo era diferente estávamos no ano de 1934 e Portugal era ainda um país fortemente rural. Castelo de Vide apesar das suas características de cidadezinha moderna compactuava com este estado da nação. De facto, eram muitos os Senhores que tinham terras, propriedades fundiárias que precisavam de gente para trabalhar a terra, para guardar os animais.
Estas herdades eram frequentemente, designadas como “monte” que era um local longe da vila para onde os lavradores produziam o seu trabalho agrícola. O “monte” era formado pela residência do lavrador, uma pequena casa solitária caiada, estábulos e arrecadações. Dos montes “avistavam-se apenas outros montes ou pequenas casas ao acaso, pelas tapadas, também sós e acanhadas, onde se guarda palha e dormiam não há muito os boieiros”. Na ausência dos patrões este ficava ao encargo do caseiro que deveria zelar pela horta e pelos animais e que vivia no monte ou então numa pequena casa a ele destinada.
Na década de 50 ainda os serões no “monte” eram animados era ai que se reunia toda a família do lavrador e da criada os caseiros, os ganhões, o abegão, os criados, o porqueiro e finalmente o vaqueiro que nem sempre podia estar presente. No monte cada um tinha a sua tarefa bem definida Nos “posies” ficava o cabreiro e o pastor a guardar os rebanhos quando á noite se fechavam as cancelas de paus e que no inverno eram guardadas pelos cães. Habitam com as mulheres e por vezes com os filhos o “sôche”, pequeníssima choça cujo esqueleto de madeira de carvalho ou salgueiro era forrado de “pa(o)lha, ça(e)enteia malha(o)da”. A cama era feita no chão sobre a camada espessa de mato. Nas saliências de madeira ficavam pendurados os objectos de madeira de uso diário, tais como as panelas uma cesta onde se guardava o toucinho e a “corna” do sal, um alforge de trapos debruado, onde estava o pão e as mercearias que traziam à sexta-feira da vila.
O lume era acesso a meio do espaço com três pedras que serviam de trempe onde se colocavam os tachos e a caçarola.
No verão iam para a sombra do chaparro onde também se ordenhavam as ovelhas e as cabras e o leite era transportado para o “monte” à cabeça do pastor ou do cabreiro se a quantidade não se justificasse seria o criado que pegando nos “latons” os levava no dorso de um burro. O pastor deveria fazer uns corredores que dava o nome de aprisque sendo ai que mugia as ovelhas e as cabras.
As mulheres dos cabreiros e pastores cuidavam da casa e da comida e trabalhavam também no campo. O milho de sequeiro era semeado nas baixas dos ribeiros onde também se semeava o “fejã(o) prête” .
O lavrador retalhava o campo por sulcos no tempo das sementeiras a que dava o nome de sortes. Sachavam amontoavam cortavam a folha do milho colhiam e desensamarravam o milho também malhavam e limpavam a eira depois eles ficavam com metade da produção pois tinham que dar ao lavrador aquilo que ele semeara estas eram as pessoas que vinham de fora dormindo muitas vezes ao relento ou em qualquer canto. (referencia do livro)
No monte a lavradora e as filhas fabricavam o queijo e tinham um forno onde também se fabricava o pão. Os vaqueiros guardavam e tratavam do gado bovino e como os animais dormiam sempre ao relento muitas vezes tinham as estrelas como tecto e outras a cama de palha perto do local onde andasse o gado.
0 Senhor Viegas nasceu em Povoa e Meadas mas cedo Castelo de Vide passou a ser a sua terra. Apenas com um ano e meio de idade seu pai foi caseiro numa herdade, que hoje se situa perto do quartel de bombeiros na terra que adoptou como sua, nas imediações havia uma carpintaria onde passava largas horas vendo as pessoas trabalhar a madeira.
Com tenra idade começou a trabalhar na vida do campo guardando gado. O tempo demorava a passar no longo Alentejo das searas e dos campos intermináveis. Assim, enquanto esperava, paciente que se alimentassem os que guardava, com as canas frechas e a sua navalha de inúmeras utilidades, indispensável instrumento de trabalho e de sobrevivência ia retalhando os pensamentos e dando forma às canas. Nunca ninguém lhe ensinou a arte aprendeu-a observando na carpintaria que ficava perto e nas longas horas de espera, de pastagem no sol ardente de baixo da solidão da imensidade alentejana. Então cortava o tempo, contava histórias, retalhava a sua fazendo as carroças ponto essencial da vida do campo mas também aquele em que acredita e em quem é devoto Cristo e porque não que os bonecos sejam parte da sua história.
De facto, a arte pastoril no Alentejo remete-nos já para tempos que nos parecem longínquos. Esta arte foi durante muito tempo uma actividade paralela á questão do pastoreio em que se matava o tempo alentejano produzindo os mais variados objectos utilitários, mas também decorativos (eram feitos chavões que serviam para marcar o pão no forno comunitário a tripeça os canudos de lareira rolos de estender a massa… a cortiça para o tarro coxos lancheiras molduras saleiros caixas de segredos etc. de chifre faziam-se as colheres garrafas, azeitoneiros, polverinhos, cornas para carnes ou azeitonas assobios, botões, travessas pentes pulseiras correntes etc.) tendo sempre como recurso os materiais mais próximos do pastor (madeira, canas, cortiça, junco, palha, bunho, chifres entre muitos outros dependendo apenas da imaginação e da habilidade). A navalha é, na arte pastoril, o elemento essencial, é ela que borda os materiais, que escava, que corta, recorta, entalha, encaixa e esgravata. Se por um lado a arte pastoril, nasce para suprimir muitas das carências e dos recursos materiais das quais as pessoas do campo sofriam criando objectos utilitários e de uso pessoal ela começou também assumir uma vertente mais decorativa, mas de uma forma ou de outra nunca esquecendo as questões estéticas. Muitas vezes alguns dos objectos produzidos no campo à sobra de qualquer chaparro era a prova da paciência de um amor cuja obra lhe era oferecida.
De facto, Francisco Viegas não borda colheres, nem caixas de segredos, mas os trabalhos que realiza são produzidos da mesma forma, com os mesmos recursos no mesmo contexto.
Francisco Viegas, homem de trabalho, (guardador de gado, ganhão, pedreiro, aleveneo, artista) está hoje reformado. Desde que deixou a profissão do campo que deixou de produzir estes trabalhos, voltando a produzi-los quando a doença se instalou e a reforma lhe deixou tempo para se sentar de novo no seu portal. Antes em cana hoje os seus trabalhos são feitos dos mais variados materiais como madeira (de vários tipos) e cortiça com alguns elementos em pele. Produz bonecos de madeira, Cristo-Reis, arados, carros de bois e carretas (antigas carroças), trabalhando em média uma hora por dia.

Arte de Trabalhar o Ferro


E o malho bate o ferro
e o ferro fica soando...
É a voz que vem não sei donde,
Já escutei não sei quando!

E o malho bate no ferro
e o ferro quase o incendeia…
trechos dum velho poema
em cada forja da aldeia!

A arte de trabalhar o ferro remonta a época em que os homens descobriram o metal e, compreendendo todas as suas potencialidades, foram aperfeiçoando a técnica de o trabalhar e moldar, fazendo dele um elemento imprescindível da vida quotidiana.
De facto, e embora se afirme que a arte de forjar lusitana não se equipara à de França, Espanha ou Itália, a verdade é que se olharmos atentamente depressa descobrimos marcas que atestam a criatividade, imaginação, perícia e habilidade dos nossos mestres, que com objectos repletos de simplicidade ou luxo, produziram admiráveis obras de arte!
Esta arte já era, portanto, “reconhecida” por D. Afonso Henriques que concedeu em 1145 aos “ Baronibus Bonis” de Coimbra a correcção dos foros e costumes, em que foram marcados novamente os preços das ferraduras, dos ferros de arado, das esporas, das armaduras, etc., para além do privilégio de que apenas os ferreiros que trabalhassem o ferro o poderiam vender, no intento explícito de incentivar a sua produção.
Foi, de facto, através dos monges de Cister que a arte do ferro começa a expandir-se pela Europa. Estes foram enviados por S. Bernardo, de Bolonha para Portugal, nomeadamente para os mosteiros de Alcobaça e S. João de Tarouca, onde aperfeiçoaram esta arte, que rapidamente se estende a cidades como Guimarães, Porto, Coimbra, Lisboa, Évora e Beja, onde podemos encontrar notáveis famílias de ferreiros (veja-se o caso dos Anes, de Gumarães -1337 a 1513 - ou os Fernandes de Lisboa, cujo fundador morreu em 1848).
Neste mesmo sentido, do período medieval também nos ficaram exemplares riquíssimos e que atestam a poder técnico e o apurado sentido estético que caracterizam os nossos artesãos. É de salientar, desde logo, a grade da Sé Patriarcal de Lisboa (séc. XIII); a grade da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães (séc. XV); a porta do antigo celeiro dos Bispos e do Baptistério da Sé, em Évora (séc. XV); a grade da galilé da Sé de Braga (1505-1532), etc.
Desta forma, e atestando a secularidade desta arte aferimos que a confraria dos ferreiros é uma das mais antigas em Portugal, remontando ao ano de 1229. Com efeito, em muitos documentos régios se referencia o ferro, incentivando-se, inclusivamente, a sua extracção e laboração nas terras de Aljustrel, Alandroal, Moncorvo, Penela, etc…
Por sua vez, do período manuelino há que destacar a grade da galilé de Braga, mandada executar pelo arcebispo D. Diogo de Sousa, e que acabou por marcar o estilo das reixas quinhentistas. Aqui, as curvas medievais são substituídas por varões de ferro ou cercadura de ornatos. Nas partes superiores podem observar-se uma linha de lanças ou espetos, sendo o remate trabalhado segundo os motivos presentes na pedra ou talha. Mas, é igualmente importante frisar a existência de três grades que se encontravam no mosteiro de Stª Cruz de Coimbra e que desapareceram, estando estimadas num valor excepcional.
Contudo, foi no período renascentista que as artes industriais atingem o seu apogeu. Na verdade, em certo momento, o desenvolvimento da arte do ferro foi de tal ordem, que começou a desarticular-se de outros trabalhos.
Foi, sem dúvida, a organização dos grémios de mestres que impulsionou o aperfeiçoamento das artes, tendo a arte de trabalhar o ferro perdido muito do seu valor após o enfraquecimento da acção promovida pela organização, no âmbito da formação dos mesteirais.
Com o início da quarta Dinastia as preocupações régias relativamente ao ferro mantêm-se, embora com intuitos mais práticos que artísticos… De facto, a insuficiência de material bélico e de ferro em vara e verga inquietava o rei D. João IV, que ordena em 1650 o restabelecimento das ferrarias de Tomar e de Figueiró dos Vinhos.
No decorrer dos séculos XVII e XVIII assiste-se à continuação do
“ (…) triunfo da ferraria artística. É por excelência a sua grande época, porque a técnica não cessa de progredir. Os mestres (…) duma habilidade extraordinária, eram capazes de realizar todo e qualquer conjunto, (…) de utilizarem ornamentos em folha de ferro, juntamente lindas incrustações de bronze e de latão, tornando as suas obras mais valorizadas e de superior gosto artístico”
[i]. Dir. LIMA, Fernando de C. Pires de – A Arte Popular em Portugal, vol. I, Editora Verbo, s.l., s.d., p. 194
No séc. XVIII, após o terramoto que destruiu por completo a cidade de Lisboa, os ferreiros desempenharam um papel activo de reconstrução de grades que acabaram por embelezar as varandas e sacadas dos edifícios. As ornamentações começam aqui adquirir um carácter mais leve e simples, à semelhança do período setecentista.
Contudo, em Portugal a partir do séc. XIX, como no resto da Europa, a utilização do ferro propagou-se a outros domínios, nomeadamente à arquitectura a à indústria, negligenciando-se o cariz artístico desta arte, em especial no que respeita os pequenos artefactos.
É, todavia, na segunda metade do séc. XX que o ferro fundido surge em substituição do ferro batido. O ferro fundido permite grades de desenho mais trabalhado, bordados densos e pesados. Porém, a técnica do ferro fundido era desde do séc. IV a. C. do conhecimento dos chineses.



A Arte do ferro fundido em Portalegre
Apesar de existirem registos de ferro artístico em todo o país, parece ser do consenso geral que é na região alentejana, em particular no Alto Alentejo, que a riqueza desta arte melhor se revela.
De facto, relativamente às peças encontradas nesta região, Luís Keil considera
“ (…) que se podem colocar no período mais antigo, que contudo não irá além dos meados do século XV, alguns exemplares, como a grade da sacristiada igreja do Convento de Avis, (…) Esse tipo, repete-se com variantes, nalgumas grades de Castelo de Vide, (...) KEIL, Luís – Inventário Artístico de Portalegre, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1943, p. LIII
Na verdade, no foral dado à vila de Castelo de Vide por D. Manuel I, em 1512, faz-se referência ao ferro e formas de o trabalhar, o que evidenciava a importância que atribuía à arte de trabalhar do ferro.
No reinado de D. Sebastião, a 15 de Novembro de 1558, foi concedido ao bispo de Portalegre, D. Julião de Alva, uma carta de privilégios para exploração das ferrarias que se encontrassem em Castelo de Vide, Marvão, Nisa, Portalegre e Alegrete, derivado da necessidade de ferro que se sentia no reino.
Por outro lado, a maioria das obras desta região concentram-se nas décadas de seiscentos, o que levou o mesmo autor a considerar que “ (…) e sobretudo no século XVIII que mais se deve ter trabalhado na arte de forjar, tecer e recortar o ferro (…). IGUAL A DE CIMA
Das obras de ferro que se salientam na região podemos destacar o fogareiro do Museu de Elvas (séc. XV), as grades do altar-mor da Igreja de Nossa Senhora da Estrela e de Stª Maria de Marvão, as grades do coro do Convento de Stª Clara de Portalegre (séc. XVI), a grade da capela de S. Pedro, da Se de Portalegre, as grades das varandas do Palácio Amarelo, na mesma cidade (séc. XVII) e as grades das sacadas do edifício do “Trem”, em Elvas (1714).
A Casa Museu José Régio contém no seu espolio um grande número de utensílios domésticos como espetos, descansos ou apoios de espetos, descansos de ferros de brunir a roupa, candeias, batentes zoomórficos, etc.,

Técnicas para trabalhar o ferro
1. À mão: quando todo o trabalho é esboçado e concluído sob a acção do martelo e de outras ferramentas de mão;
2. À máquina ou moldado: quando o metal é comprimido por meio de pancadas de corpo bastante pesado, entre formas ou moldes;
3. À prensa hidráulica: quando o metal é tratado como uma substância plástica que é obrigada a adquirir a forma de determinados moldes ou formas, sob o esforço contínuo de uma pressão hidráulica;
4. A quente, na forja: a operação consiste em aquecer o ferro para de seguida o caldear, encalcar, puxar, curvar, cortar, furar, etc., dando-lhe a forma e as dimensões desejadas. É a técnica mais delicada e difícil de executar, que requer um conjunto de outras operações. A saber:
· Caldear – Operação pela qual se liga entre si dois pedaços de ferro. Para realizar esta técnica é necessário aquecer as partes a ligar a uma temperatura tal que se tornem plásticas, de modo a que pela acção da martelagem as moléculas de uma e outra parte se interpenetrem e a força de coesão as ligue entre si formando um todo contínuo. Quando o ferro está quase a caldear lança-se-lhe por cima areia branca que funde sobre a parte aquecida, cobrindo-a de uma camada isoladora que impede a oxidação e refresca um pouco a periferia, dando tempo a que na parte interna a temperatura se eleve, tornando a massa mais uniforme.

· Encalcar – Consiste em exercer um esforço de compressão, no sentido da fibra, sobre uma barra ou varão de ferro, quando se pretende que este engrosse, nalgum lugar, com prejuízo do comprimento da vara, que se vê reduzido. Nesta operação é necessário que o ferreiro aqueça o ferro no lugar onde deve engrossar, fazendo esfriar as outras partes, que não devem mudar de forma, banhando-as em água fria. De seguida, a peça é malhada até se obter a grossura desejada.


· Puxar – Contrariamente à operação anterior, esta consiste em adelgaçar o metal, em benefício do seu comprimento. Para puxar a vara deve-se dar um calor no local adequado, colocar a vara sobre o cavalete, na zona de maior diâmetro e malhá-lo.

· Curvar – Para levar a cabo esta operação podem ser utilizados diferentes processos: 1) colocar o metal bem quente sobre o cavalete e batê-lo sobre a parte de fora até atingir a curva ou ângulo desejado 2) apertar a obra entre as bocas de um torno de bancada e bater no extremo livre até atingir o resultado pretendido 3) sobre um plano traçam-se as curvas que se desejam obter, tanto da parte côncava como da convexa, de forma a ficarem tangentes ao maior número possível de furos do pano. Dispõem-se um certo número de cavilhas, formadas por pedaços de ferro, que entram nos furos do pano, entre as quais se introduz, a quente, a peça que se pretende curvar. O metal curva-se sempre no sentido da fibra. A operação termina dando ao metal um calor ao máximo grau que este possa aguentar, de modo a evitar fendas ou outros defeitos.

· Cortar – esta operação é feita a frio, com o corta-frio, ou a quente, com a talhadeira ou goiva, batendo-se sobre estas ferramentas depois de se lhes colocar o corte sobre o metal assente na parte plana do cavalete. Quando se corta a quente é necessário ir molhando a talhadeira para evitar que ela perca a têmpera.

· Furar – de acordo com as dimensões do material e do furo pretendido, esta operação é feita a quente ou a frio. O metal é colocado no cavalete, de forma a que o eixo do furo que se pretende abrir coincida com o eixo do furo do cavalete, aplicando em cima um punção sobre o qual se dão pancadas precisas. O diâmetro do punção deve ser progressivo, iniciando-se com um redondo e delgado e sucessivamente alargando com outros mais grossos, até chegar ao que tenha o diâmetro desejado.

“A história simples de um homem simples”
Entre todos os ferreiros um se destaca pela sua tenacidade e espírito inventivo: Carolino Tapadejo. A sala de estar da sua habitação transformou-se, pela mão do seu filho de igual nome, numa sala de visitas em que todos entram sem reservas. Esta peculiar sala troca as porcelanas, as madeiras e as telas pelo metal que transforma este espaço num museu vivo da arte do ferro! Quem a visita não fica indiferente a uma tão rica produção que impressiona e deslumbra pela beleza e sensibilidade estética.
Com efeito, a família do senhor Carolino Tapadejo veio para Castelo de Vide em 1492 fugida de Espanha, perpetuando, desde então, a tradição de trabalhar o ferro desde o seu avô João Batista Tapadejo, que deixou o seu legado ao seu pai Carolino Tapadejo Calado, e este aos seus sucessores.
Seu pai casou-se aos 20 anos com Rosalina Coimbra Pina, entrando nesse mesmo ano para o exército, onde permaneceu durante 9 meses exercendo a função de serralheiro. No ano seguinte regressa à sua terra repleto de ideias e com vontade de evoluir no ofício.
Em 1947, morre a sua mulher, com o nascimento do seu primeiro filho de igual nome – Carolino Tapadejo. Em 1949 casa novamente e tem mais três filhos.
Assim, investe na sua formação, compra ferramentas adequadas, e depressa a sua oficina, mesmo em frente à Casa do Morgado, “se enche” de clientes e ganha prestigio. Ao longo de 50 anos o Sr. Carolino Tapadejo teve 101 aprendizes, o que apenas comprova a arte e a mestria com que executava as suas belíssimas obras de arte.
Em 1963 foi convidado a fazer esculturas para os EUA, e em 1974 termina a magnífica fruteira em ferro forjado, que será sempre o seu ex-líbris
Acaba por falecer a 27 de Agosto de 2001 vítima do seu segundo AVC.
Neste sentido, e com o intuito de revitalizar e inovar o velho ofício, o Sr. Tapadejo publicou uma série de textos sobre a sua família e a arte do ferro. De facto, teve o melhor mestre: o seu próprio pai. E embora também ele domine a arte de o trabalhar diz com humildade e convicção que o artista é o pai e não ele!

Arte Boleira

O agradável aroma que percorre aquela rua depressa nos atrai e impele a segui-lo, num misto entre a tentação e alguma preguiça a que as manhãs sempre obrigam. Encontramos, então, a simpática Casa de chá que o olfacto não permite ignorar. Ao entrar, como que enlevados por odores que à meninice lembram, contemplamos distintos géneros de bolos que não representam mais que parte integrante da memória e identidade do povo de Castelo de Vide.
E é, portanto, neste ambiente caseiro e acolhedor que descobrimos Belmira Branquinho, senhora com uma voz adocicada por 40 anos de mestria na arte boleira. A D. Belmira, natural de Castelo de Vide, vila que a viu nascer no ano de 1933, que a viu casar aos 23 anos, que a viu dar à luz a sua única filha, teve pouco tempo para estudar, a família era grande e por isso desde cedo que teve de cuidar dos seus irmãos.
Começou a sua vida profissional como modista, ofício que aprendeu durante 3 anos, abriu o seu próprio negócio mas chegou uma nova legislação a nível do comércio e a obrigatoriedade de ter de se colectar e pagar às finanças deixando-a, assim, sem outra escolha que não deixar o ofício, que tanto ama e que vai ainda praticando. Idealiza algumas peças, faz casacos, blusas e saias para a sua maior cliente, para ela própria. “ Em estando aqui até se esquece” diz a filha sobre a costura, à D. Belmira.
Casada com um sapateiro, a vida era difícil. Conheceram-se porque moravam perto (“éramos quase vizinhos!”). Nessa altura a D. Belmira “trabalhava na costura, era modista (haviam muitas modistas em Castelo de Vide) ”. Como moravam perto costumavam cruzar-se na rua e ele começou a gostar dela. Nessa altura D. Belmira namorava com um rapaz da sua idade, e o seu marido perguntava-lhe: “Então mas não deixa o gaiato?”, “e que, enfim que a obrigar-me a deixar o rapazinho. E eu deixei!”
Deixou o trabalho de modista e com o seu companheiro de vida abriram um pequeno restaurante. Tinham-se mudado há pouco para uma casa da sociedade em que não pagavam renda nem luz, tornando assim, as coisas mais fáceis. Ainda aí trabalhou na costura (com um pequeno numero de empregadas) acumulando a este ofício a confecção de petiscos no restaurante. Ia fazendo os petiscos e às vezes os bolinhos para o café de cafeteira….Um dia fazia mais umas coisinhas, outro dia outras, e assim começou a aumentar o negócio, dedicando-se somente à bolaria. Arte que a mãe lhe ensinara e que sempre fizera com gosto.
E na casa de chá que hoje é sua faz, as delícias dos seus clientes e amigos. As especialidades da casa são as famosas boleimas, os bolos de massa, o bolo finto, a enxovalhada e os biscoitos escaldados.
Ninguém se lembra de quando se começou a fazer estes bolos, mas também são poucos os que se perguntam…Em entrevista com o Sr. Carolino Tapadejo, tão bom conhecedor das questões dos judeus e cristãos novos, esclareceu-nos sobre a origem destes tão deliciosos bolos. “O pão ázimo transformou-se em bolo de massa que depois evoluiu para boleima. O bolo de massa, sem doce é só com farinha, água, sal e um bocado de azeite. Era massacrado com um garfo exactamente porque os judeus achavam que o pão tinha que ser massacrado, mas como eram judeus não poderiam chamar pão ázimo.
Mais tarde começaram a por na massa, por alguma festa, um bocado de açúcar e canela e até um bocado de maçã e é assim que nascem as boleimas. O biscoito escaldado são umas rosquinhas, uns “s”, cuja farinha chegava de outros lados, e como não era não controlada, escaldavam-na, com azeite a ferver para tentar purificar a farinha.”
A boleima é, sem dúvida, o bolo mais famoso da casa, pelo seu delicioso sabor e esplendorosa confecção. A boleima é feita a partir da massa do pão à qual se adiciona banha. Tende-se, então, a massa num tabuleiro e espalha-se o açúcar e a canela (pode ter ou não maçã) Pica-se a massa com um garfo, depois de estar estendida no tabuleiro, para tirar o ar e vai ao forno 20 a 30 minutos.
Para desempenhar a sua profissão necessita de uma cortadeira de colher de pau de alguidar para dissolver a massa trincha, para pintar bolos, tabuleiro, batedeira, amassadeira e raspador
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